sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A dança das estrelas

Com as lágrimas do vento,
Ela teceu a canção do movimento.
Foi-se no tempo
Como um vulto que some
Na noite escura...
Ela é só tormento
-Seu coração é doce sepultura.
Inflamável
e serena,
Ela serpenteia em noites seguidas
pela mágica tessitura da leveza.
Ela é extrema em singeleza.
Doce e diáfana,
ela é plena.
Desliza, nas nuvens vermelhas,
Ávida de água cristalina.
Ela é demente
e lúcida.
Seu caminho é um rastro
de fogo e pétalas.
Ela devaneia
enquanto - lá fora -
a chuva dissolve
a dança das estrelas.

Latência


Onde habita o desejo
Reina o mistério.
Qual é a ponta do desejo?
Em que pontes
Ele se eleva
Ou se dilui?
O desejo se consome nele mesmo.
O desejo satisfeito
É o início do próximo desejo.
O desejo é sempre do que não se tem
Ou do que não se é.
O desejo é pacto?
O que é o desejo?
O desejo tem dimensão?
O desejo é dúvida
Ou certeza?
O desejo é sempre
Um enfrentamento.
O desejo flui
Ou flana?
O desejo derrota as defesas.
É definitivo
Ou indefinido?
O desejo dói
Ou dá?
O desejo é dádiva
Ou dor?
O desejo domina
Ou decide?
O desejo desliza
Ou determina?
O desejo é encontro
Ou despedida?
O desejo
desiste?

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Lua cheia


A lua cheia
Está desnorteando minha cabeça
Espero que a luz do sol
Dissolva essa loucura
Do mar enfurecido.
Ondas quebram na minha retina
E inflamam meu pulmão.
Estou insuportavelmente
Lúcida.
Dentro de mim,
Enxergo até o que não devia ver.
Não suporto mais tanta razão.
Desarvorada,
Jogo-me na areia
E cedo ao turbilhão.

Inferno

O deserto de nuvens vermelhas
Incendiou de vez minha cabeça.
Será que é tudo minha imaginação?
A escada em espiral,
A velha espectral,
A poeira suspensa,
Os olhos no vitral...
Manhã sanguinolenta
-O olhar perdido no tempo,
O fim da emoção.
Não ha saída,
nem meia volta.
Nesse labirinto,
Ninguém ouvirá os teus gritos
Nunca mais...

Denso

Os homens são feitos de carne
E o mundo é feito de pedra.
Impossível conciliar essas incompatibilidades.
E as selvas?
As selvas vasculham a memória de um tempo vivido,
Pois as florestas encontram-se ameaçadas
Pelo concreto que cresce e encobre o céu.
Os homens caminham em praias desertas,
Fugindo da fumaça das cidades.
Mas é inútil: as praias estão repletas de peixes mortos.
Os homens de carne já se acostumaram ao concreto.
Não podem mais viver na selva.
Preferem o grande alvoroço das cidades e suspensos,
Adormecem em suas gaiolas solitárias.
Não gemem, choram, completamente, inconsoláveis.
Não dormem: vislumbram fantasmas soturnos
Tecem pesadelos eternos nas pequenas salas
As carnes enrijecem no monótono exercício da vida.
-Fluxo, espécie de rio, que os atravessa despercebidos.
Ouvem-se preces: mais adiante, colocam uma lápide sobre um homem.
Carne e concreto se eternizam contrariados,
Fragmentados, num silêncio imenso.